"Quanto mais converso por aí, mais percebo que é inútil acreditar em
verdades absolutas e fórmulas ideais de convivência. Cada pessoa tem familiares
que influenciaram suas escolhas, medos herdados e medos adquiridos, sonhos altos
demais ou mesmo nenhum, e um número incalculável de perguntas sem respostas, de
desejos embaraçosos, de mágoas vitalícias. Quem vai decretar para mim o que é
melhor para mim? E quem vai dizer o que é melhor para você?
A melhor vida não é aquela que atende aos mandamentos universais, as ordens
celestes e os clichês eternizados, mas a que se tornou possível, a que você vem
construindo a despeito de todas as suas dúvidas.
A melhor vida seria a da Gisele Bündchen, pensa a menina feia. A melhor
vida seria a da Dilma, pensa a vereadora de uma cidadezinha do interior.
Enquanto isso vivem a vida possível, sem perceber o quanto deveriam ser gratas
por não precisarem arcar com consequências que desconhecem.
A melhor vida para mim é bem diferente da melhor vida para você. Reúna o
planeta inteiro e não se encontrará duas pessoas que planejem possuir a mesma
vida, porque uns não querem ter horário para nada, outros se envaidecem em ter
suas atitudes comentadas por estranhos, há os que se paralisam a primeira
frustração, os que estão sempre inventando novos desafios, e a vida possível de
cada um torna-se impossível para os demais e temos que conviver intimamente uns
com os outros apesar desse tabuleiro inesgotável de escolhas e destinos.
A melhor vida não é a focada em suposições, fantasias, esperas, surpresas e
demais previsões que raramente se confirmam. A melhor vida não é aquela que é
cumprida feito um pagamento de dívida, como um acerto de contas com nossos
antigos anseios juvenis. A melhor vida não é a que desenhamos quando criança na
folha do caderno, a casinha de venezianas abertas, a fumaça saindo pela chaminé
e os girassóis protegidos por uma cerquinha branca, e tudo o que isso sugere de
proteção e vizinhança com os desejos comuns a todos.
A melhor vida possível é aquela que, mesmo com algumas pontas de
lápis quebradas, você ainda vem desenhando."
POR MARTHA MEDEIROS